O objetivo é promover um retorno à experiência de vida em pequenas comunidades, como nas cidades do interior onde todos se conhecem. Para isso, a diversidade é importante. “Temos vários tipos de empreendimentos, vizinhos um do outro. Prédio comercial, escola, universidade, tudo fica perto dos núcleos residenciais. Queremos resgatar a sensação de morar em uma cidade pequena, onde dá para almoçar em casa com a família”. Infraestrutura, mobiliário urbano, ruas largas, calçamento, paisagismo e a intenção de criar senso de comunidade entre os moradores. Esses são os principais ingredientes para a formatação do bairro planejado, conceito diferente do loteamento e um produto ainda recente no urbanismo brasileiro.

Considerando o regramento do município, a empresa incorporadora desse tipo de empreendimento prospecta e planeja a ocupação de grandes áreas. “É um produto que envolve equipes multidisciplinares, incluindo arquitetos, paisagistas, urbanistas e até sociólogos. A organização do espaço é focada nas pessoas, privilegiando calçadas, ciclovias e áreas para convivência. Integração com transporte público, design planejado para evitar poluição visual e oferta de serviços como internet sem fio também estão entre as premissas do produto.

A intenção é que a urbanização seja consciente, incentivando o senso comunitário, tanto que os primeiros habitantes têm de formar uma associação de moradores, da qual todo mundo que vai residir ali deve fazer parte.

O crescimento deste modelo de ocupação urbana no País suscita o debate sobre sua eficiência para compor as cidades. Perguntamos: as cidades ganham com os bairros planejados?

A história do urbanismo está intimamente ligada à construção de cidades e bairros planejados como forma de oferecer maior qualidade de vida aos moradores das novas áreas urbanas. A partir do século 20 esse modelo se difunde, principalmente pela atuação do mercado imobiliário, como forma de prover habitação de qualidade para a nova classe média, tornando-se um poderoso instrumento para a ampliação do acesso à moradia qualificada. Cabe ao poder público, como responsável pelo ordenamento do território, juntamente com os cidadãos organizados e a iniciativa privada, orientar a implantação dos novos bairros planejados para que as nossas cidades como um todo possam colher os seus benefícios. As questões urbanas atingiram tal complexidade que a única forma de continuar crescendo é planejar novas áreas e recuperar espaços já ocupados. O bairro é a unidade urbana mais próxima da escala do homem e, por isso, planejá-lo é a forma mais eficiente de intervir nas cidades. Isso é pensar a partir das necessidades específicas de uma localidade e sua população, estabelecendo diretrizes que vão além das previstas no zoneamento, protegendo-os contra os excessos da ocupação imobiliária. É pensar o futuro da cidade. Hélio Mítica Neto: arquiteto e diretor-executivo da Terra Urbanismo, empresa especializada em projetos urbanísticos

Ganham e perdem. Ganham porque bairros planejados são boas alternativas para cidades, que estão diariamente em construção por processos diversos, a maioria pouco planejada. Perdem porque os grandes problemas estão nas áreas construídas e, não, naquelas por construir. Se isso não for bem considerado, os novos bairros serão ilhas de bom planejamento sobre ambientes caóticos. Os resultados serão sempre colchas de retalhos mal costurados, por melhor que seja a qualidade individual deles. O que as cidades brasileiras precisam mais é de planejamentos urbanos amplos e de longo prazo, e não apenas de restritos, por melhor que sejam. Caso contrário, teremos cada vez mais bairros bons e péssimas cidades. Francisco Carneiro da Cunha: arquiteto e urbanista formado pela Universidade Federal de Pernambuco, sócio-fundador da TGI Consultoria em Gestão e integrante do Observatório do Recife